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O absurdo da agricultura moderna - Por: José Lutzenberger


Depois da última Guerra Mundial, quando a Alemanha estava totalmente devastada, é verdade que o Plano Marshall ajudou, mas, mais importante é que os habitantes das cidades podiam se espalhar pelo campo e fazer "hamstern", isto é, trocar qualquer coisa de valor, um relógio, um anel, um piano, por alimento. Os camponeses tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo, frango, ganso, e muito mais. Não seria necessária uma guerra hoje para colocar os agricultores europeus em uma posição em que eles próprios teriam de fazer "hamstern", mas onde?! Nenhuma bomba precisa cair. Um simples colapso na energia, no transporte, especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seria suficiente. Espantoso, que os militares não pareçam estar preocupados. Fundamentalmente, a segurança nacional depende de uma agricultura sadia e sustentável.

O sistema atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros itens não comestíveis) começa nos campos de petróleo e todos os tipos de minas para metais e outras matérias-primas, passa pelas refinarias, siderurgias e plantas de alumínio, etc., a indústria química, a indústria de maquinária, o sistema bancário, o envolvente sistema de transporte (consumindo principalmente combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens e um totalmente novo complexo de indústrias que quase não existiam no passado - a indústria de manipulação de alimentos que mais mereceria ser chamada de indústria de desnaturação e contaminação de alimentos (com aditivos e resíduos de agrotóxicos). Se quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas de trabalho nas indústrias acima mencionados e algumas outras, assim como alguns serviços, tal como as empresas de "fast food" que, em inglês, bem merecem o qualificativo de "junk food" (comida entulho), e distribuição de alimentos, até onde elas direta ou indiretamente contribuem para a produção, manipulação e distribuição de alimentos, precisam ser adicionados.

Isto tudo deveria até mesmo incluir as horas de trabalho que correspondem ao dinheiro que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que financiam os subsídios. É significativo que a maior parte dos subsídios vai, não para o agricultor, mas para o complexo industrial. O agricultor é sempre mantido à beira da falência. Um balanço completo deste tipo certamente mostraria que, atualmente, numa economia moderna, também em torno de quarenta ou mais por cento de todas as horas de trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, em sua visão não holística, colocam as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de maquinária, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria química e assim por diante, como se não tivessem nada a ver com alimentos. O que temos, então, com umas poucas exceções, é redistribuição de tarefas e certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais eficiência na agricultura.

Vamos olhar com mais detalhe para alguns dos aspectos decisivos: quase sempre o moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais produtivo em termos de eficiência de mão de obra, tampouco é mais eficaz em termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que produz.

No sul do Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical do Vale do Uruguai foi completamente demolida, deixando apenas algumas pequenas relíquias. A floresta foi derrubada e queimada com a quase total destruição da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja. Isto não foi feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para enriquecer uma minoria (pessoas sem tradição agrícola) com a exportação para o Mercado Comum Europeu para alimentar gado. As plantações de soja estão entre as mais modernas - grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos químicos. Essas plantações não são, de maneira alguma, atrasadas quando comparadas ao mesmo tipo de plantação nos USA. No nosso clima subtropical o agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, mas poucas vezes o faz. Comparado ao que os nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa, raramente mais do que três toneladas de grãos (total, verão e inverno) por hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local, facilmente produzia 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras, uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para o gado, além de porcos e galinhas. Mas ele não produzia PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de dinheiro, não leva em conta autosuficiência e mercadeio local. A conta do PIB interessa o banqueiro, o governo, as grandes corporações transnacionais, nada tem a ver com o bem estar das pessoas, da população. Quando estatísticas das Nações Unidas declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por dia se tivesse que comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou Shopping Center. No período áureo de nossa colonia no Rio Grande do Sul, anos trinta, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa farta, vivia muito bem.

Não obstante esta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os grandes às custas dos camponeses. Centenas de milhares deles tiveram que desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para o norte em direção à floresta Amazônica. Uma devastação tremenda foi feita com dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em geral fracassam, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da floresta são desmatadas. No Brasil central, o cerrado, o equivalente sul americano da savana africana, está hoje sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma das quais cobrindo centenas de milhares de hectares contíguos. Na sua biodiversidade o cerrado é tão valioso quanto a floresta tropical, e eventualmente, até mais. Num exemplo concreto também se argumenta que os índios camponeses em Chiapas, México, que estão agora lutando pela sua sobrevivência, rebelando-se contra o NAFTA (o Mercado Comum Norte Americano), são atrasados, eles produzem somente duas toneladas de milho por hectare comparado com seis nas plantações mexicanas modernas. Mas isso é somente parte do quadro, as plantações modernas produzem seis toneladas por hectare e é só. Mas os índios produzem uma colheita mista, entre seus pés de milho, que também servem para suporte de variedades de feijão que são trepadeiras, eles plantam legumes, abóbora, morangas,batata doce, batata inglesa,tomate e todo tipo de vegetais, frutas e ervas medicinais. A partir do mesmo hectare eles também alimentam seu gado e galinhas. Eles facilmente produzem quinze toneladas de alimento por hectare e tudo sem fertilizantes comerciais ou pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.

José A. Lutzenberger, Porto Alegre 2002. Brasil, setembro de 2001.

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